domingo, 26 de junho de 2016

Diário de Cuba 3: El Malecon

        



       Acordou sentindo-se muito bem. Lembrou-se do pobre chinês borracho e meio locão da noite anterior (ler Diário de Cuba 2: El Chino de La Habana), tomou um típico café servido nas casas de moradores cubanos aos que lá se hospedam, um pratão de frutas tropicais como: manga, mamão, goiaba e banana com um copo de suco de laranja. Após, serviu-se de uma xícara de café, um pãozinho com manteiga e um ovo frito, baita desayuno! Era seu terceiro dia em Cuba e resolveu caminhar por Habana Vieja, conheceu praças, teatros, livrarias, conversou com muitas pessoas e almoçou no mesmo restaurante onde havia conhecido o chinês da noite anterior.
        À tarde, pegou um ônibus daqueles que fazem tours guiados pela cidade, visitou prédios imponentes de antes da revolução socialista, como os Hotéis Nacional, que aparece no filme O Poderoso Chefão II, e Habana Libre, onde Fidel Castro hospedou-se  para despachar e receber líderes políticos nos primeiros dias da vitória da revolução socialista. Saltou na Praça da Revolução, tirou fotos nos prédios do Ministério da Defesa, aquele da figura em relevo do Che Guevara e sua célebre frase: "Hasta la victoria siempre". Ao lado, o prédio do Ministério da Ciência e Tecnologia, onde há uma gravura do Camilo Cienfuegos e sua frase mais lembrada: Vas bien, Fidel!  
        Da praça da revolução, pegou um táxi até a Universidade de Havana, entrou num restaurante, pediu uma pizza e sentou-se na única mesa vaga do local. Nisso, chegou um grupo de adolescentes cubanas, que pareciam cabularem aula. Uma das meninas puxou assunto:
       - Puedo? - apontou para a cadeira ao seu lado.
       - Si, como no.
      Encheram a mesa.  Pediram uma coca cola e uma espaguetada e dirigiram-lhe a palavra mais uma vez.
      -  Donde vienes?
      -  Brasil.
      - Verdad? No creo! -  a mesa inteira passou a prestar atenção nele.
      A palavra "Brasil" pareceu uma chave de boas vindas, o grupo de umas 5 ou 6 adolescentes abriu-se em sorrisos, acharam o máximo estarem conversando com uma pessoa do Brasil:
      - Me encanta Brasil! - disse uma delas, e passaram a enumerar diversas novelas ou personagens das novelas brasileiras, que ele vagamente se lembrava. 
        - Avenida Brasil, Paraíso Tropical, Chocolate com Pimenta, Glória Pires, Antônio Fagundes, etc e etc. - disseram que uma vez, o governo suspendeu o racionamento de luz para que as pessoas assistissem "A Escrava Isaura" e que até o próprio Fidel trocava os horários das reuniões para ver a Lucélia Santos atuando no papel principal do livro homônimo do Bernardo Guimarães.
        Eram estudantes normalistas do primeiro ano e realmente cabulavam aula. O dia estava lindo e muito divertido, mas sentiam uma pontinha de peso na consciência, afinal de contas, era o povo cubano que fazia esforços gigantes para mantê-las estudando, mas prometiam compensar estudando em casa com muito afinco.        Ao final da conversa, convidaram-no para passear juntos até o Malecon, o passeio à beira mar que inspira fotógrafos e poetas do mundo todo para assistir ao pôr do sol. Ele agradeceu o convite, mas queria conhecer a Universidade antes de voltar ao centro, onde estava hospedado. Despediram-se com tanta alegria, que em todos ficou a certeza de que há muito dos cubanos nos brasileiros e muito dos brasileiros nos cubanos.
       Tirava fotos em frente à Universidade de Havana quando chegaram dois homens:
       - Quiere conocer adentro la universidad?
       - Es posible?
       - Si, somos professores.
      Entraram na Universidade, um era professor de farmácia e o outro de ciências sociais. Mostraram-lhe a Faculdade de Direito, onde havia estudado o Fidel Castro, o prédio onde o Lula havia feito um discurso, outro que iria receber o Frei Betto. Conversaram um pouco sobre as dificuldades de ser professor universitário em Cuba, passearam diante da fábrica do Legendário, um rum fabricado próximo à universidade de forma toda artesanal. Conheceu a Casa do Estudante, onde Fidel Castro havia morado, local onde reuniram-se os revolucionários após a chegada triunfal à capital e onde hoje existe um bar. Pediram um mojito cada um.
        - Quiere dos botellas del ron Legendario? Es 20 CUCs. - Uns 80 reais.
        - Claro, que gentileza.
    Pagou os drinques de todos, pegou as duas garrafas de rum e despediu-se de seus amigos professores cubanos. Entrou no ônibus para o centro da cidade, abriu a sacola onde estava o rum, mas percebeu que as garrafas estavam cheias de água. Caíra num golpe clássico que alguns vigaristas aplicam nos turistas: contam histórias verídicas misturadas com criações e exageros, pegaram a grana do rum falso e ainda tiveram o drinque pago pelo brasileiro idiota.
     Estava chegando próximo do horário do pôr do sol e o ônibus estacionava no Malecón. Apesar do céu nublado, o raio vermelho do sol por detrás do Hotel Nacional e das as construções coloniais multicoloridas em mau estado de conservação, a Fortaleza da La Cabaña e os carros clássicos antigos formavam uma imagem tão charmosa, que era impossível ficar chateado com o calote sofrido. 
      Trinta anos! Tinha recém feito 30 anos, o Malecon era lindo e estar no coração da América Central, em uma ilha socialista lendária, no meio do caribe, era mais do que havia sonhado, mas tudo o que seu coração precisava naquele momento de sua vida. Para compreender Cuba e os cubanos, seria preciso desprender-se dos preconceitos pequeno-burgueses que havia acumulado em sua alma nos últimos tempos,  seria preciso banhar-se de povo, pensar com o povo e ser mais povo do que estava acostumado. 
     Sentou-se em um boteco para ver o finalzinho do pôr do sol que se arrastava lentamente. Pediu uma água, que foi trazida por um rapaz que se sentou ao seu lado e abriu uma cerveja Cristal. Como não estava muito para papo, terminou de tomar a água e pediu a conta:
      - 2 CUCs. Un por la agua y otro por la cerveza. - o rapaz não era funcionário do bar, buscou água e a cerveja fingindo-se ser um garçon para ganhar a cerveja.
     - Tu bebiste la cerveza, no te voy a pagar. Aca, 1 CUC. 
     Pagou somente o valor referente à água e seguiu caminhando orgulhoso por não ter caído em mais um golpe. Um cruzeiro zarpava da baía de Havana e havia música ao longe. Entrou na Cidade Velha, aproximou-se de um bar que tocava música italiana, quando escutou de dentro do bar:
     - Hey, brazilian! -  Era a ruiva canadense que havia conhecido na noite anterior, na festa em que o seu amigo chinês havia sido expulso. - Come on! - ela estava sentada com outra mulher, uma morena, sua irmã.
    Entrou no bar, sentou-se com as duas mulheres e pediram uma garrafa de vinho. - a banda começava a tocar o "Ela é Carioca" do Tom Jobim e tinha anoitecido em Havana.     
      
     

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