domingo, 3 de setembro de 2017

Diário de Cuba 5 - Final - Uma Odisseia no Caribe

 



     Já passava das oito horas da manhã e ele continuava em frente à pousada onde estava hospedado em Varadero. Começava a ficar preocupado...Fred havia combinado às sete e até agora nada do cubano chegar para levá-lo até o aeroporto de Santa Clara. O voo sairia a uma da tarde e teriam que percorrer duzentos quilômetros. O pior de tudo, é que se recomendava chegar duas horas antes da decolagem, por ser um voo internacional.
    Um francês, que estava hospedado na mesma pousada, disse-lhe:
    - Esses latinos! Aqui em Cuba é assim, eles se importam somente com o dinheiro, estive no Vietnã e é a mesma coisa, os comunistas deixaram o povo tanto tempo sem ver a cor dos dólares, que agora só querem extorquir os turistas. Tu não vai conseguir embarcar pro Panamá, só lamento. Quem mandou confiar nesses cubanos.
    Aquele filho da puta do Fred prometeu-me que dava tempo, eu vou matar esse desgraçado, devia ter ido a Santa Clara ontem. Burro, burro, mil vezes burro! 
    Fred chegou às nove horas pedindo mil desculpas, houve um problema no abastecimento por falta de gasolina, comum em função do bloqueio. Além disso, o carro tinha demorado muito para dar a partida. Ele olhou para dentro do veículo...lotado! Fred levava a mulher, seu filho, um bebê de colo, e sua mãe:
    - Ellas teniam ganas de visitar mi hermana en Santa Clara, pero todo se quieda muy tranquilo!
   Entrou no carro e foi mais uns 20 minutos para que desse a partida.
   - Porra, ontem tu me disse que essa merda de carro estava muy bueno!
   - Si, ayer no podria ni salir de casa con el. Ahora solo 20 minutitos e viaja normal.
   Saíram corcoveando pelas ruas de Varadero, o carro apagava, tossia, fumava, todos davam com a cabeça no pára-brisas numa freada, depois davam com a nuca nos bancos na hora da arrancada, olhava com ódio para Fred, que dizia:
     - Tranquilo, un pequeño problema nel motor.- Tinham 2 horas para chegar ao aeroporto de Santa Clara, num Lada 1974 caindo os pedaços, que morria em cada cruzamento e demorava mais alguns minutos para ligar novamente, ele já não conseguia esconder a irritação:
    - Por que me deciste que el coche estava bueno?
    - Es un pequeño problema, quedate tranquilo, hombre de Dios!
    Em cada acelerada, fumaça entrava pelo freio de mão enferrujado, no painel não havia indicação nenhuma, nem de combustível, velocidade, temperatura, fumaça saía por debaixo do capô. Fred largava ponto morto nas descidas, o bebê chorava, a mãe rezava em espanhol e sua mulher o xingava:
     - Por que mentiste al pibe? No hay tiempo para el vuelo, Fred! Por que es asi?
     Lá pelas tantas, Fred sai da estrada principal:
     - Um atalho!
     Acontece, que o atalho era uma estrada de terra, lamacenta e cheia de buracos, o nervoso já tinha tomado conta de todos, muitas subidas, ao fundo avistava-se o mar do Caribe e seus sete tons entre o azul e o verde, carros de boi nas colinas, casebres, agricultores numa plantação olhavam o carro com muita surpresa, quando Fred anuncia:
     - No tenemos tiempo para llegar hasta el aeropuerto, voy dejarte aqui e cuando un coche mas rapido pasar, tu va hasta el aeropuerto, aca yo vuelvo. - "Não temos tempo para chegar ao aeroporto, vou te deixar aqui e quando um carro mais rápido passar, tu vai até o aeroporto, eu volto daqui.
     Não aguentou e gritou em português mesmo:
     - Escuta aqui, seu filho da puta! Tu me disse ontem que dava tempo, o carro mais rápido que tem aqui, além desta lata velha, são aqueles carros-de-boi em cima daquele morro! Nós vamos juntos até Santa Clara, agora!
     A mulher de Fred compreendeu tudo:
    - Va llevar el chico hasta el aeropuerto y si no hay tiempo para llegar, venderemos el coche para pagar la pasajem de vuelta al Brasil! A veces te odeo Fred!
     Fred pisou fundo, todos ficaram em silêncio, o pobre motorista suava e tremia como uma vara verde. Foi quando se deu conta de que todos naquele carro estavam fazendo o possível para que ele chegasse ao aeroporto, apesar da trapalhada e da malandragem do pobre Fred, ele estava dando o máximo de si, as duas mulheres rezavam no banco de trás e até o bebê havia parado de chorar, era muita torcida, no auge do desespero seu coração encheu-se de amor por aquele povo e sua luta por dignidade...caiu na gargalhada!
      - Olha só, se eu perder este voo, amanhã tem outro, pago a multa e deu, ok? - Fred caíra no choro, pediu desculpas e disse que também não lembrara que poderia haver problemas de abastecimento, passara a noite lidando no carro para que os levasse em segurança, nem iria cobrar a corrida. Todos se uniram numa irmandade que só era possível no povo habitante deste lugar do mundo compreendido entre o norte do México e o sul da Argentina, a América Latina, pobre, sofrida, mas puro coração.
        A vida de todos era muito mais importante que chegar a tempo do voo, atrás de uma cadeia de montanhas, brilhava o mar cubano. Aquele francês da pousada não sabia bosta nenhuma do que era ser latinoamericano e do que era solidariedade. Além do mais, ao desqualificar os latinos, esquecera-se de que também se desqualificava, era europeu, mas latino...aquela corrente do bem fez com que sentisse que ia dar tempo sim!
      Chegaram ao aeroporto de Santa Clara 20 minutos antes da decolagem e mais uma vez a solidariedade prevaleceu, os policiais atenderam aos pedidos desesperados de Fred e sua mulher, que explicavam o atraso. Abraçaram-se emocionados na despedida, ele furou a imigração com a ajuda das autoridades que também se envolveram para ajudá-lo, entrou no avião segundos antes de fecharem a porta. 
      Estava voltando para o Brasil, nem sonhava que ainda haveria de enfrentar um golpe de Estado naquele mesmo ano e que Fidel Castro morreria em alguns meses. Quando a emoção passou, comia um sanduíche e tomava um vinho italiano pago no cartão de crédito, olhou pela janela do avião e estava sobrevoando uma favela miserável, já estava no Panamá.
     
   
   
   
   

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